Anáfora – Figura de Linguagem


A anáfora é uma figura de linguagem sintática de repetição. As figuras sintáticas inserem-se no estudo das relações existentes entre os termos da oração, ou seja, tratam-se de possíveis repetições ou omissões de palavras, da ordem em que elas aparecem na frase e, ainda, de desvios em relação à concordância entre termos.
Na anáfora ocorre a repetição da mesma palavra ou construção no início das orações, períodos ou versos, ou, ainda, a retomada de termos já expresso anteriormente, por meio de pronomes demonstrativos (este, esse, aquele) e relativos (que, o qual).

Veja o poema abaixo de Carlos Drummond de Andrade:

José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Observe que a repetição “E agora, José?” aparece sempre no início de versos.
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